terça-feira, 14 de março de 2017

O mar

"O Oceano Pacífico saía do mapa. Não havia onde pô-lo. Era tão grande, desordenado e azul que não cabia em sítio nenhum. Por isso o deixaram em frente da minha janela.
Os humanistas preocuparam-se com os pequenos homens que ele devorou ao longo dos seus anos:
Não contam.
Nem aquele galeão carregado de canela e pimenta que ao naufragar o perfumou.
Não.
Nem a barca dos descobridores que rodou com os seus famintos, frágil como um berço desmantelado no abismo.
Não.
O homem no oceano dissolve-se como um ramo de sal. E a água não o sabe."


Pablo Neruda  em "Uma Casa na Areia"

Dim Sum

"Os jiaozi são consumidos em ocasiões especiais. O significado de jiaozi tem explicações diversas, umas mais romanceadas que outras. Alguns livros dizem que «jiao» é alegria, e «zi» é o nome que se dá ao período que vai das 23h de um dia, à 01h do outro, assinalando a passagem entre a última e a primeira hora de cada dia, numa clara alusão ao facto dos jiaozi doces serem típicos das celebrações de fim de ano.
Comem-se à meia-noite e durante os primeiros quinze dias de cada Novo Ano Lunar. O convívio que se estabelece nas refeições de jiaozi serve igualmente para unir as famílias, sendo por vezes o momento propício para se resolverem zangas do passado.
(...)
No século XVII surge em alguns livros ingleses de cozinha a palavra dumpling para classificar a generalidade das receitas à base de massa recheada. Actualmente o termo dumpling agrupa uma extensa lista de preparações como os ravioli e os gnocchis italianos, o nockerl ou o spätzle da Europa Central, os pel`meni do Leste europeu, ou os mantou da Ásia Central. Os dim sum também entram na categoria de dumplings, mas vão além da classificação de prato ou receita, são um acto de convívio social, um rito cultural. Nasceram de uma demonstração afectiva, queriam tocar o coração através do estômago. São um mundo à parte no universo da cozinha oriental asiática."

Fortunato da Câmara  em "Os Mistérios do Abade de Priscos"

sábado, 11 de março de 2017

Transmontano Alucinado 😄

 
Feijoada vegana de legumes e seu topping. Almôndegas de bulgur, beterraba e pimentão doce. Basmati de azeitonas, alecrim e pezinhos de cogumelos. 💗😋😋💗

A Pedra-Que-Mata

"Solidão -
após o fogo de artifício
uma estrela cadente."
 
"Apoiada contra a árvore
quase sem folhas -
uma noite de estrelas."

Masaoka Shiki  em "A Pedra-Que-Mata" - Antologia de
Poesia Japonesa com tradução de Luís Pignatelli



Voz Activa

"Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia."
 
Miguel Torga em "Diário XIII"

quinta-feira, 9 de março de 2017

Um poema de Sidónio Muralha

"Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.
 
Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.
 
Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeçar.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.
 
E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço."

"Roteiro" de Sidónio Muralha

quarta-feira, 8 de março de 2017

Brinquedo

"Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.
 
O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.
 
Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel."

Miguel Torga  em "Diário I"

terça-feira, 7 de março de 2017

Depois da chuva, no lugar de Wangchuan

"Depois da chuva, o fumo dos borralhos enlaça o bosque,
na panela, legumes cozidos, no fogo, milho assado.
Nos campos, a leste, os homens esperam a merenda.
Sobre o arrozal imenso, uma garça voa,
na sombra fresca da floresta, um verdelhão canta.
Procuro a quietude no alto da montanha,
como vegetais, olho os hibiscos da manhã *,
vou colher girassóis cobertos de geada.
Humilde, sou agora igual ao velho camponês.
Porque duvidam ainda de mim as gaivotas ** ?"
 
*Os hibiscos que murcham um dia depois de desabrocharem, simbolizam a transitoriedade da existência humana.
 
**As gaivotas, sempre associadas ao prazer da liberdade, não receiam os xian, os imortais, mas abominam os homens vulgares.


"Poemas de Wang Wei" com tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu

segunda-feira, 6 de março de 2017

"Isto filhos, a poesia e a cozinha são irmãs" (VI)

 
 
Caldeirada de seitan de espelta caseiro com cardamomo e gengibre.
Duo de couves com alecrim e creme balsâmico, abóbora assada com alho-francês e canela.
Batata assada com caril doce e endro.
💗😋😋💗

Madrugada - Quite Emotional


Canção a Évora

"Évora que não és minha
E que eu gostava de ter:
Moira cativa e rainha
Que não pude converter!
 
Não tenho nas minhas veias
Nem o templo de Diana,
Nem a praça de Geraldo,
Nem a brancura redonda
Da água das tuas fontes ...
 
Tenho montes,
Vinho maduro e granito,
E esta certeza de ser
Filho de Cristo e de Judas.
 
Ah! Se eu pudesse mudar,
Já que tu, moira, não mudas! ..."

Miguel Torga  em "Diário III"

sexta-feira, 3 de março de 2017

Merendando com os monges da montanha Fu

"Avançado nos anos, conheci princípios puros, claros,
hoje, cada vez mais afastado da multidão.
Espero a vinda dos monges da montanha solitária,
já varri a entrada do meu humilde lar.
Depois de picos e nuvens, ei-los por fim chegados
à pobre casa de colmo, o meu lar.
Sentados em esteiras, comemos pinhões,
queimamos incenso, lemos os sutras.
Extingue-se o dia, acendemos lanternas,
anuncia-se a noite, tocamos o ching. *
Ao compreender que a quietude é fonte de alegria,
a vida concede-nos a liberdade serena.
Porquê tanta pressa em regressar?
No mundo tudo é vazio e nada."

Wang Wei


* Pedras sonoras percutidas com uma vareta de madeira
"Noite profunda
O som da água
diz o que penso."

Gochiku