sábado, 18 de novembro de 2017

"Há quem diga que as palavras são coisas mastigáveis como os alimentos, e há ainda quem entre em pormenores como quem entra numa sala, dizendo que se todas as palavras são mastigáveis e transportáveis pela língua de um lado para o outro da boca, nem todas alimentam os homens; só certos versos o farão.
Poderão os versos de grandes poetas alimentar um homem durante alguns dias, senhor Breton? Eis uma pergunta. Possuirão os versos, questiono, qualidades de energia surpreendentes, como se tivessem componentes semelhantes a proteínas e glícidos?
Sabe-se já, há muitos anos, que certos produtos se decompõem em outros produtos mais pequenos, libertando energia nesse processo. Resta saber o que sucede quando um verso se decompõe nos seus constituintes; quando depois de balançar na boca que o diz, desce ao estômago e se divide.
(...)
Em que se dividirá o verso? Em letras? Em outra coisa? E o que resultará dessa decomposição? Que energia será aí libertada? Será uma energia inútil, ou, pelo contrário, será algo capaz de influenciar os nossos actos? A energia de decomposição de um verso será capaz de fortalecer o estômago e a vontade?"
 
Gonçalo M. Tavares  em "O Senhor Breton e a entrevista"

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ainda Não Foi Hoje Que Choveu

"I
A chuva anda por longe, entretida
a causar inundações na Indonésia.

A chuva dir-se-ia que por estes lados
deixou de ser possível
e que a morte à míngua de água
traz debaixo de olho a Terra Quente.
 
 
II
Hoje acumularam-se umas quantas nuvens
e chegou a parecer que choveria.
As pessoas punham, desassossegadas,
olhos e rogos no céu.
 
Mas logo o vento mudou
e dispersou a esperança, enxotou-a
como se enxota um velho cão vadio
que vem coçar as pulgas para junto de nós.
 
 
III
Um velho de sacho ao ombro
segue cismando em direcção à horta
- lugar onde pertencem os dias que lhe restam - ,
cruza-se comigo no caminho.
 
Com modos que já só a aldeia sabe,
levanta o chapéu e diz com desalento:
ainda não foi hoje que choveu.
 
E é o seu próprio olhar que vai chovendo
conformação sobre a pesada, opaca
poeira do caminho."


A.M. Pires Cabral  em "Gaveta do Fundo"

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Isto filhos, a poesia e a cozinha são irmãs" (XIX)

 
Risotto de espargos e ervilhas. Raspa de limão a perfumar. 💗😋😋💗

Nils Landgren Funk Unit - House Party


Espanta-Espíritos

"Amanhã tudo será pior
ainda, eu sei: o hábito, a inércia,
o sem remédio da vida - tão pouco
haverá a salvar.
 
Por toda a cidade os desconhecidos
subirão outro degrau para o escuro
da noite, e a memória será talvez
um remorso:
 
aquela manhã de sol
na varanda, o espanta-espíritos
com peixes de alumínio num rosário
de contas profanas.
 
Ainda o tens? Ainda canta,
de madrugada, se o vento sopra
do mar?
 
Não importa. Foi sempre de menos
o muito que pedimos
 
e a parte que tivemos."

Rui Pires Cabral em "Capitais da Solidão"

Sintra e o seu Castelo (IV)

Outono

"Outono.
(A palavra é cansada ...)
Tudo a cair de sono,
Como se a vida fosse assim, parada!
 
Nem o verde inquieto duma folha!
O próprio sol, sem força e sem altura,
Olha
Dum céu sem luz e levedura.
 
Fria,
A cor sem nome duma vinha morta
Vem carregada de melancolia
Bater-me à porta."
 
Miguel Torga  em "Diário I"

Lawrence Ferlinghetti, A Poesia como Arte Insurgente

sábado, 4 de novembro de 2017

"a areia fria da manhã que cheira
a cardos a maresia
 
as pegadas disformes
impressas pela multidão rumorosa da véspera
ao fundo o som do mar
 
os nossos pés miúdos mal
sarados da ferroada de um peixe-aranha
enfiados
nas sandálias de borracha
 
as dunas rodeando a baía
as primeiras toalhas empoladas pelo vento
as riscas recolhidas dos toldos
 
a gaivota branca o escaravelho preto
o peixe na lota prateado
 
em espasmos graves no topo
do balde
a abrir e a fechar a boca num turvo sermão
que ninguém escuta."
 
Miguel Manso  em "Persianas"

The National - The System Only Dreams in Total Darkness


Exercício Espiritual

"Ouço-os de todo o lado.
Eu é que sou assim,
Eu é que sou assado,
Eu é que sou o anjo revoltado,
Eu é que não tenho santidade ...
 
Quando, afinal, ninguém
Põe nos ombros a capa da humildade,
E vem."

Miguel Torga  em "Diário I"

"Isto filhos, a poesia e a cozinha são irmãs" (XVIII)

 
Millet de alecrim. Couve de bruxelas em cama de couve roxa assada e alho-francês. Pêra recheada com puré de feijão preto e cebola roxa. 💗😋😋💗